Escalas de cinza: quarentena

Minha mãe as vezes me perguntava porque não tenho medo do escuro… ora, como sentir medo daquilo que faz parte?


São 17:40, junho de 2020. Não está totalmente escuro, mas também não está claro. Curiosamente meus olhos enxergam o quarto cinzento.

Em minha cabeça ecoa o trecho “freedom!, freedom! i can’t move” de uma conhecida música de letras fortes. Minha memória virou uma exposição interna de imagens do que tenho visto e assistido durante esses dias. Tantas notícias ruins, algumas positivas. E essas boas notícias são tão enxutas que acabam sendo sugadas pelas notícias ruins. Sei que tudo que estamos passando é necessário de alguma forma, mas o lamentável é que muito está se perdendo para que seja necessário ser feito algo. Muitas coisas vão deixar de existir e não vão voltar, para que só então possamos aprender a dar valor para o amanhã.

Curiosamente, o mundo verá que não é só de coisas boas que são feitos os aprendizados, mas de ruins também. E quanto maior for a teimosia, a negligência e a dificuldade de aprender, mais consequências ruins vamos ter que suportar. Não adianta fechar os olhos para a realidade e escolher a alienação por parecer ser mais fácil, a verdade vai vir por bem ou por mal, seja pela piedade ou pela dor e trauma. A verdade pode ser cruel quando é ignorada, ela chega praticamente de forma obrigatória.

Aprendizados da verdade são forçadamente posto dentro de nós.
Veja o que ela tem pra ensinar.

Depois de tanto tempo de pura negligência, a conta está acumulada e bateu no teto, chegamos no limite. Quem paga? todos. E quem mais vai sair no prejuízo? aqueles que ainda negligenciam, que perderam sua bússola interna da moral e empatia.

Quando será que essas prestações de contas em 2020 vai terminar? Não sabemos, talvez depois da meia noite quando os fogos explodirem em um céu que festeja isoladamente sobre um oceano vazio de promessas.
Mas quem sabe?

Mas deixando dezembro um pouco de lado e voltando para o agora…

Bem, ainda está tudo preto e branco ao meu redor. Não tenho apetite, uma coisa preciosa e inocente foi perdida como se fosse nada. Estou em pedaços. Um nó na garganta. Queria chorar, mas não tenho lágrimas. Nosso mundo está perdendo suas cores, e não sabemos quando vai voltar. Mas em meio a tudo isso, nem sei se ainda é necessário.

Está tudo preto e branco e de alguma forma essas únicas duas cores com variados tons estão me representando por dentro. O que se vê, é refletido por dentro.

Seria essa a quarentena?

E agora só queremos paz. Sair… não para a rua – pois ainda devemos ficar em casa – , mas sair daquele ou deste pedaço de mundo que seguramos e sustentamos. Por um instante, queremos silêncio, desejamos a mente perdida no vazio, e querer sumir… só por um instante.

É preciso o “eu” não existir num curto tempo, para que então possamos continuar existindo. Então me isolarei… ficarei aqui parada nos tons de cinza ignorando as vezes essa realidade que mostra a verdade mas adoece quando é consumida exacerbadamente. Escutando a respiração e a vida la fora.

Suportaremos o preto e branco até as cores voltarem.

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